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A recompensa do brigadista

Eusimar Araújo encontrou mais do que uma profissão ao se juntar à Brigada Aliança

Eusimar Araújo já foi vaqueiro e eletricista. Mas a vocação o esperava em outra atividade. E bateu à sua porta em 2012, quando a empresa na qual trabalhava faliu. O surgimento inesperado de uma vaga no curso da Brigada Aliança fez com que ele decidisse se arriscar, sem saber que descobriria ali mais do que uma nova profissão. E uma realização.

Foi durante os 15 dias de treinamento intenso que Araújo percebeu toda a técnica que havia por trás do ofício de brigadista. “O curso é pesado, muita gente desiste. A gente estuda força, tempo, organização, quadro de comando, hora certa de agir, de parar e organizar, todas essas coisas. Às vezes vai até de madrugada. Vamos amadurecendo com a equipe, pegando mais experiência”.

O homem de fala baixa e tranquila jamais pensou em desistir. Por dois anos, Araújo atuou como brigadista júnior no Parque Estadual do Araguaia, no Mato Grosso, até se tornar líder interino da equipe. De 2015 até 2020, Araújo se estabeleceu como um dos líderes da base no Parque Estadual do Xingu (MT), atuando em conjunto com o Corpo de Bombeiros, a Secretaria do Meio Ambiente (SEMA) e a Defesa Civil. Também atuou no treinamento de civis e de brigadistas indígenas. Atualmente, Araújo é um Guerreiro de Fogo, distinção para os mais experientes integrantes da Brigada Aliança. Desde o ano passado transferiu-se para Poconé (MT), onde lidera uma das cinco equipes do projeto da Brigada Aliança/Friboi no Pantanal.

A mudança de ambiente exigiu atenção especial do brigadista, sempre atento às características do terreno onde está em ação. “A vegetação do Pantanal é parecida com a do vale do Araguaia, mas os incêndios são mais agressivos. O período de agosto a outubro é mais crítico, passamos semanas fora. Na região do Pantanal alagadiço tem muito animal peçonhento, principalmente na beira de rios e riachos. Temos que estar preparados porque encontramos muitas cobras”.

Considerado um dos biomas mais ricos em biodiversidade, o Pantanal tem estado no foco dos olhares em todo o mundo. Especialmente nos anos de 2020 e 2021, nos quais as queimadas produziram imagens impactantes e consumiram grandes áreas na região. No início de sua atuação em Poconé, há pouco mais de um ano, o discreto Araújo diz ter estranhado o fato de trabalhar sob tantos holofotes. A preocupação com as pessoas, que sempre foi uma de suas características, teve de ser redobrada.

“Às vezes as pessoas não entendem que os combates a um incêndio exigem cautela e tática. É necessário unir segurança ao ataque. Tem que obedecer a natureza. Meio-dia, uma hora da tarde, o fogo é avassalador. Se chegar perto, ele te queima. Conforme for o incêndio, o combate é mais efetivo se for feito à noite. No Pantanal, se combate muito à noite, por isso demos muito resultado lá”.

Araújo menciona uma situação em que identificou risco na aproximação dos veículos de comunicação. “Tinha umas 60 pessoas no meio de um combate. O solo estava alagadiço, caminhões e máquinas atolando, os jornalistas lá. Tudo isso mais ou menos às dez horas da manhã, quando o fogo ganha força. Eu precisei tomar uma atitude, porque aquilo estava errado, havia muitas vidas em risco. Fomos obrigados a retirar todo o pessoal para manter a segurança deles”.


LIÇÃO EM CASA

Desde cedo, Araújo percebeu que o manejo do fogo exigia muita técnica. “Na infância, meu pai usava o fogo para reformar pastagem. Eu tinha de 8 a 10 anos e fazia a queimada controlada com ele. Começava em maio, o fogo ia até 16h e já apagava, não se alastrava mais. As pessoas tinham experiência. A matéria orgânica era consumida e aí vinha o bruto”, lembra.

Como brigadista, diz, o trabalho é diferente. Exige noção de tempo, de rotas de ataque e de fuga, tática e agilidade. Para o combate noturno, é necessário um reconhecimento prévio da área, com mapeamento e roteiro. Mesmo com tantas técnicas, Araújo explica que o combate ao incêndio é imprevisível e que as noções adquiridas por ele vieram da experiência no dia-a-dia da brigada e do número de combates, além dos cursos realizados. “Quando pegamos um combate, só largamos depois que ele está eliminado, porque nosso trabalho tem um compromisso com o produtor. Isso traz muita confiança para eles”.

O trabalho de condução da equipe e a posição de liderança exigem conhecimento e atitude. Araújo comenta que quando iniciou os serviços, em 2012, não imaginava que chegaria à posição de liderança, pois considerava que tinha pouco conhecimento de combate. No entanto, o brigadista evoluiu como responsável conforme se desenvolvia na função.

“Para ser brigadista e líder, tem que estar com a mente muito amadurecida. Vai muito estresse, cansaço, tudo. Tem que raciocinar mesmo passando dias dormindo muito pouco. É um serviço que exige muita dedicação. Mas quando a gente começa a salvar a fauna, a flora, as pessoas, isso me fez perceber que o serviço que a gente estava executando era o que eu queria”.

Araújo conta que foi para Poconé primeiro, alugou a casa, e depois veio a família. Tem dois filhos, uma menina de 10 anos e um menino de 4. Ele diz que já levou os filhos ao trabalho, para verem (em segurança, é claro) como é, e o pequeno ficou apreensivo. “Ele viu que era muito fogo, mas fala que quando crescer, vai ser bombeiro. Ele se espelha muito no meu serviço, ele acha bonito chegar fardado, tem essa referência”.


GRATIDÃO

A dureza dos combates traz recompensas. Araújo relata que tem carinho especial por alguns casos, como o de uma senhora, viúva havia pouco tempo, que recebeu um alerta de que sua fazenda estava queimando. A situação emocionou o brigadista, especialmente quando, depois de dois dias de reconhecimento da área, a equipe conseguiu controlar a situação. “Quando ouviu que estava tudo bem, ela ficou grata demais. Disse que não tinha como agradecer”.

Em 2021, a Brigada de Poconé tinha sob sua responsabilidade o monitoramento de 25 fazendas cadastradas no projeto em parceria com a JBS/Friboi. Mas a disposição de ajudar fez com que a atuação cobrisse uma área bem maior. Araújo conta que distribuiu cartões com seu contato para as fazendas da região e que a informação foi se espalhando. Em alguns casos, proprietários atendidos quiseram demonstrar sua gratidão com um pagamento. Araújo nunca aceitou. “A gente já recebe e é muito grato. A felicidade deles é o meu pagamento. Se estão contentes com o serviço que estamos prestando para a população, nosso coração já aperta”.



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